Quinta-feira, 24.05.12

Diário de uma criança à beira do nervoso miudinho - Eduardo Sá



Os pais não servem como despertador. Adormecem de manhã, como todos nós, mas, ao mesmo tempo que levantam a persiana e nos chamam «Meu querido» e coisas assim, querem que, entre a cara lavada e os cereais despachados, façamos dos 0 aos 100 em poucos... minutos.

Entretanto, como convém às pessoas ponderadas, e paramos de nos vestir para pensarmos na vida, eles sofrem de hiperatividade e, em jeito de ameaça, gritam qualquer coisa do género: «Eu juro que me vou embora, e deixo-te aqui!» (que era tudo o que eu mais queria!).

Os pais servem, também, para nos tirar a boa-disposição, antes do trabalho. Enquanto só não chamam «boas pessoas» a todos os senhores automobilistas que, segundo eles, estavam bem era dormir, ouvem (de meia em meia hora!) as mesmas notícias, atendem o telefone, olham 30 vezes para o relógio, melindram-se com a nossa cara de segunda-feira e, sempre que dizem, com voz de pateta: «Quem é o meu tesouro, quem é?», quem faz as contra-ordenações perigosas somos nós!

Os pais servem para imaginar que todas as crianças, ao chegarem à escola, são campeãs de felicidade.

E que nunca nos apetece mandar a nossa professora para a... biblioteca, de castigo, enquanto ela pensa se não será feio mentir (sempre que grita connosco, quando garante, aos nossos pais, que é só doçuras e meiguices...).

Os pais servem, também, para nos ir buscar à escola. E nisso escapam! Mas, independentemente de nos apetecer limpar o pó ao mundo, perguntam (todos os dias!): «Correu bem a escola? e O que foi o almoço?», com tantos pormenores, e no meio de tanta inquietação, que nos provocam brancas e nos levam ao stresse.

Os pais servem para nos deixar nos tempos livres. E, quando pensávamos que podíamos brincar à vontade, (ou não são os tempos... livres?) descobrimos que eles só podem ter sido levados ao engano porque, afinal, nos obrigam a estar, mais uma vez, quietos e calados. E, pior, quando estamos prontos a pedir o livro de reclamações, ora nos castigam com trabalhos de casa ora nos põem, sentadinhos, a ver os mesmos desenhos animados tantas vezes, que nós achamos que isso deve servir para aprendermos a contar até... 100.

Mas os pais servem, também, para trabalhar para a nossa formação desportiva e para o lazer. Quando chegamos à natação, gritam quando não nos queremos despir ali, à frente de toda a gente. Acham que não podemos brincar nem nos balneários nem na piscina. E gritam, outra vez, quando insistimos que os avós e os acompanhantes das outras crianças não deviam saber em que preparos viemos ao mundo.

Os pais servem, também, para zurzir no nosso lado bem-disposto, quando (de regresso ao carro) nos mandam cumprimentar a prima Maria da Glória que, em vez de nos dizer «Olá», delicadamente e com maneiras, nos esborracha contra ela e nos lambuza e, enquanto nos despenteia, duma ponta à outra, nos ofende, de cada vez que diz: «Ai, meu filho, o teu rapaz está tão crescido!....» (Meu filho?... Mas o pai bateu com a cabeça? Então, maltratam-lhe o filho, em vez de lhe darem um beijo transformam-no em algodão doce, e ele, ainda por cima, sorri e agradece?...)

Quando, finalmente, entramos em casa e estamos prontos para descansar, os pais servem para nos dizer, contra todas as nossas expectativas: «Primeiro, fazes os trabalhos de casa. Só depois brincas».

E servem para azedar a nossa boa disposição quando, logo a seguir, tratam, como se fosse contrafação, os pacotes de leite, as embalagens de bolachas e as caixinhas com os presentes da Happy Meal que, carinhosamente, tínhamos a dormir ao pé de nós.

Os pais servem para escandalizar, todos os dias, a nossa paciência, ao jantar. Começam por nunca respeitar o nosso: «Já vou!». Vendem-se à publicidade enganosa de cada vez que acham que a sopa de cenoura «faz os olhos bonitos». Servem-nos ervilhas e, carinhosamente (como quem não está muito seguro do produto que promove), chamam-lhe «bolinhas».

E nunca se cansam de nos dizer que a fruta faz bem!

E, quando o dia não pára de nos surpreender, os pais servem para dizer, todos os dias: «A partir de hoje... tu vais ver!».

E, sempre que estão chateados com o trabalho, para reclamar. Assim: «Ah queres fazer uma birra? Pois vamos ver quem faz a birra maior!...»

E, quando querem quebrar a monotonia dos nossos dias, os pais, servem para pronunciar com alma cada palavra, quando nos estragam com meiguices: «Qualquer dia... eu emigro! Para muito longe! E quero ver como é que vocês se safam!».

Com dias assim, em que o pai e a mãe fazem de Capitão Gancho, quem não se rende à canseira e adormece antes do fim de cada história? E quem é que não cede ao nervoso miudinho e não acorda, a meio da noite, com os nervos em franja? E quem é que não ficaria desolado, no meio de toda a energia renovável que eles têm, quando perguntam com quem estávamos a sonhar (e nós, não podendo dizer que era com eles), respondemos que temos medo é... do Papão!

Nós gostamos dos pais. Desconfiamos que eles imaginam que passam pouco tempo connosco mas, se for para isto, não temos coragem para os contrariar. Afinal, nós sabemos que todas as pessoas de coração grande têm a cabeça quente.

E nunca pomos em dúvida que só o amor importa. Só não entendemos porque é que os pais tenham de ser esta canseira!

E achamos que, desta maneira, eles nos fazem nervoso miudinho.

Eduardo Sá
in paisefilhos.pt
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Quarta-feira, 28.03.12

Não há nada como (no) antigamente…

Não há nada como (no) antigamente…

Escrito por em 15-03-2012 / Comentários: 1 / Categoria: Educação

As birras insistem em fazer parte do dia-a-dia das crianças e de quem as educa. O que estará acontecer nas famílias onde parece que quem manda são os filhos? Assumem hoje os pais um modelo de referência na vida das crianças? De que forma os filhos se deixam influenciar pelas atitudes dos pais? Children see, Children do!

Poderia começar este texto dizendo “Em conversa com …”. Porém receei que pensassem que estavam a ler o texto da semana anterior. A verdade é que a conversar é que “a gente” se entende e percebi ao longo dos tempos que é a “minha gente” que me inspira. É nos outros que vamos buscar os maiores ensinamentos.

Este texto foi inspirado numa conversa com a minha avó, que me dizia (a resmungar, como sempre) que o “catraio” do meu primo mais novo não a respeita e dos sete netos que ela criou ao mesmo tempo (éramos muitos e terríveis) nenhum deles “abusava da língua” como ele abusa. A verdade é que lhe respondi “arrebitadamente” (já que de feitio saio a ela) porque é que não lhe dava uma “palmada” como fazia muitas vezes connosco (e muito bem). Calei a avozinha com uma pinta e ganhei um amuo desde dessa hora.

educacao-criancas

 

Fiquei a pensar porque carga de água até os avôs receiam “dar uma palmada na hora certa”.

Não pensem com isto que acho que bater nas criancinhas é a melhor solução. Contudo, acho que passamos do 8 ao 80 e entramos em tamanha permissividade que quem manda em casa são os filhos e não os pais.

Não tenho grandes respostas para dar no que diz respeito à melhor forma de educar as crianças. Porém, não tenho qualquer dúvida que dizer NÃO é essencial e que amar os filhos não significa deixá-los fazer tudo o que querem.

Educar de forma coerente é fundamental. É necessário existir um equilíbrio entre a atenção dada e as regras estabelecidas. E reforço que atenção não é sinónimo de brinquedos. Atenção é dedicar tempo a ouvir o que eles fizeram na escola, é enche-los de abraços (mesmo quando eles dizem que é uma seca), é não privar de dizer “gosto de ti”, é reforçar as características positivas dizendo “- Parabéns, tu deste o teu melhor!” e não “- Não serves para nada, nem foste convocado para o jogo de futebol esta semana”. Não se esqueçam pais, de não projectar os vossos sonhos nos filhos – Não é porque não consegui ser bailarina ou jogador da bola, que vou querer que o meu filho seja a todo o custo -.

É fundamental assumir uma NÃO do inicio ao fim, mesmo que isso custe uma vergonha num supermercado. As regras são fundamentais para viver em sociedade. Assumam-se como “Autoridade” e “Referência” sem recorrer ao “Jesus que manda trovoada para castigar” ou ao“- Policia que vem para te prender se continuas a gritar no meio do Shopping”. Acima de qualquer outra coisa, sejam modelos. Tudo aquilo que os pais são, os filhos sonham um dia ser.

 

mae-repreender-filhofilhos-batem-pais

 

Convido-vos assim a ver um vídeo que nos faz reflectir sobre a importância dos pais na vida das crianças…

http://daquepensar.com/2012/03/nao-ha-nada-como-no-antigamente/

publicado por salinhadossonhos às 22:39 link do post | comentar | favorito
Sábado, 28.01.12

Há escolas...

 
Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo.
Pássaros engaiolados são pássaros sob controle.
Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser.
Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros.
...Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados.
O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros.
O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Rubem Alves
 
 
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Terça-feira, 03.01.12

A Revolução das Crianças

A Revolução das Crianças

São urgentes os espaços ruidosos e o silêncio nas famílias. E que os pais reclamem para si o que exigem às crianças. Como o mimo. É urgente que nos reconciliem com as palavras infantis como: «ajuda-me», «tenho medo», ou «quero mais».


Depois das grandes revoluções que o império romano e o cristianismo trouxeram à Humanidade, mudando mentalidades e comportamentos, os portugueses terão criado a grande revolução do renascimento (que veio a encaminhar-nos para a revolução francesa e para o positivismo). Na verdade, os descobrimentos portugueses e o terramoto de Lisboa mudaram o mundo. Os primeiros, porque revelaram quanto o engenho humano consegue ultrapassar medos e demónios. O segundo porque deixou a descoberto a grande incongruência da justiça divina (dando espaço para que a justiça dos homens se substituísse à delegação papal na constituição do poder político e
Confluísse para a ideia de um Estado de Direito).

A exponencial bondade da técnica, no nosso quotidiano, a significativa democratização dos recursos económicos e do acesso ao conhecimento, no pós-guerra, e o contacto cada vez mais tardio com a morte e com a nossa pequenez tornaram a religiosidade distante e assustadora. E o ato de religar e de sintetizar o que se sabe com o que se desconhece foram tornando, no nosso tempo, a subjetividade humana distante, misteriosa e assustadora. Curiosamente, estamos a chegar a um tempo onde a lei do Homem passa por um exorbitante deslumbramento fugindo de todas as realidades que impliquem exaltação, dúvida, paixão, medo, fantasia ou sonho, enfim.

A hegemonia técnica na construção do pensamento parece encaminhar-nos para a ideia de que, desde que funcione, tudo pareça valer, levando a supor que o essencial do conhecimento passa por rentabilizar o que se conhece e não tanto a tomá-lo como
o pequeno piscar com que reconhecemos as pessoas com quem contamos para não soçobrarmos ao escuro.

Num mundo dominado pela técnica e pelas flutuações da economia, como podemos compreender a função das crianças na vida dos pais? Acredito que se desenha uma nova revolução. Movida pela subjetividade humana e pelos valores da relação.
E, nesse contexto, as crianças e a família serão, no futuro, ainda mais preponderantes. Não no sentido dos pais deprimidos – que tantos slogans não se cansam de acarinhar, atormentados por não darem tempo, em quantidade, aos seus fi lhos – que (em vez
de brincarem com eles) os empanturram de brinquedos, que se submetem todos os fins-de-semana ao programa social das crianças e que – de cada vez que devem dizer «não» – se sentem no dever de o sufragar, através de muitas alíneas, pelo «douto» assentimento dos mais pequenos.

Acredito que a revolução das crianças passa por nos percebermos, por dentro, à escala do universo, pequeninos, como elas. Aumentando o perímetro da nossa ignorância à medida que conhecemos. Percebendo que crescer significa separar e enxergando - como elas fazem quando brincam – que, de cada vez que nos confiamos, estamos em Deus (en-theos, de onde surge a palavra entusiasmo). Logo que nos comungamos, transformamos saber em sabedoria. E sempre que escutamos somos mais clarividentes, mais justos, mais bonitos e melhores. É comovente como, para elas, somos a sua fonte de vida, de sabedoria, de justiça e de futuro. E somos – numa só relação – a janela para todas as revoluções com que a humanidade pula e avança. É por isso que eu acredito que a revolução das crianças passa por fazermos com elas como elas fazem connosco. Sendo assim:

É urgente que não protejamos as crianças de todos os riscos. Apesar disso, é fundamental que sejam protegidas do maior de todos: a infância dolorosa dos seus pais. É urgente que os pais se reencontrem com a sua infância na dos filhos, porque as dificuldades na educação não passam pelo modo como eles não escutam as crianças mas pelo ruído, ensurdecedor, dos seus sofrimentos infantis nos seus gestos de pais.
São urgentes os espaços ruidosos e o silêncio nas famílias. E que os pais reclamem para si o que exigem às crianças. Como o mimo.

É urgente que nos reconciliemos com palavras infantis como: «ajuda-me», «tenho medo», ou «quero mais». E com práticas milenares como «a vista na ponta dos dedos» e «o espreguiçar» (do coração).

Só assim criaremos uma nova revolução. Das crianças! Movida pela subjetividade humana e pelos valores da relação. Para que, sempre que as escutamos, nos tornemos mais clarividentes, mais justos, mais bonitos e melhores. Fonte de vida, de sabedoria e de futuro.

 

http://www.paisefilhos.pt/index.php/opiniao/eduardo-sa/3886-a-revolucao-das-criancas

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Terça-feira, 27.12.11

Educação para Totós - Eduardo Sá


Educação para Totós - Eduardo Sá

"Muitos pais enfeitiçam as crianças, tornando-as sapos, quando as transformam no seu precioso espelho mágico, ficando totós uns para os outros.

1. Nas histórias para as crianças há, regra geral, uma princesa adormecida (de preferência formosa) e um cavaleiro apaixonado que se propõe despertá-la, com um fogoso beijo nos lábios. É verdade que poucos pais consideram que esta tendência obstinada de um transeunte, cheio de amor-próprio, para incomodar (com beijoquices) o eterno descanso da princesa seja um mau exemplo para as crianças. E é verdade, também, que se fosse um filho nosso a beijar (mesmo por distracção) um sapo com quem se tivesse cruzado, em vez de despontar – de tão fortuita fortuna - um príncipe teríamos lá em casa uma zaragata à italiana. Por outras palavras: não há quem entenda a forma imprudente como os adultos põem aos beijos as personagens das histórias para as crianças…
Mas – pior ainda – o que me preocupa é que nessas histórias há sempre uma pessoa que dorme e outra que a desperta. E isto já é publicidade enganosa. Porque – todos sabemos – duas pessoas acordam sempre que aquilo que as liga as desperta, uma à outra, ao mesmo tempo. Aliás, eu acho que, com as crianças, se passa, sensivelmente, ao contrário do que sucede às princesas e aos sapos: elas estão despertíssimas mas, mais beijo menos beijo, há sempre alguém que não descansa enquanto não as adormece, por dentro, e as transforma em totós. (Se pensava que o lado enganador das histórias para as crianças passava pela forma como elas falam, por exemplo, de fadas – como se fosse possível encontrá-las numa qualquer repartição – ou pelo engenho com que põem uns pares de renas e o Pai Natal às voltas pelo ar, está muito enganado…).
2. Histórias à parte, são muitas as circunstâncias em que os pais acumulam muitos créditos com os quais tornam as suas crianças um bocadinho adormecidas. Ou, se preferirem, um tudo-nada… totós. Daí que, para acabarmos, de vez, com esta tentação de transformarmos crianças despertas em totós adormecidos devemos dizer que:
- as crianças estão autorizadas a sujar-se. As crianças que não se sujam não são uns anjos: ainda não descobriram que serão pessoas melhores sempre que forem pequenos índios com coração e com maneiras;
- as crianças devem brincar, também, na rua. Sempre que só sentem a cidade através dos vidros do carro dos pais deixam de ser crianças: ficam macambúzias;
- as crianças precisam de descobrir o tempo livre. Quando têm uma agenda e nunca mandam nos seus minutos – pelo menos quando brincam – não são crianças. São burocratas de mochila;
- as crianças têm o «direito constitucional» de andarem de cabeça no ar. Sempre que alguém as quiser certinhas e crescidas ficam rezingonas. E só quando forem pais, com um sentimento que viveram adormecidos, é que irão perceber que só aprende quem põe ao leme, para sempre, a vontade de rir;
- as crianças têm o dever de crescer com a ajuda de algumas trapalhices, porque só as crianças trapalhonas sabem que o brincar é a melhor escola de todos os imprevistos;
- as crianças estão autorizadas a cair. Nunca caindo não aprendem a cair;
- as crianças devem lutar, várias vezes por semana. Primeiro, com almofadas, com os irmãos. Depois, no chão da sala, com o pai. E, a seguir, com os amigos, fora de casa. Se nunca lutam podem, até, parecer exemplares. Mas não são crianças: tornam-se «xoninhas»;
- as crianças têm o direito a não ser falsamente elogiadas. Sempre que as elogiam, como se fossem tolas, viram sapos. Podem até ser belas. Mas tornam-se adormecidas.
3. Nas histórias para as crianças há, regra geral, uma princesa adormecida (de preferência formosa) e um cavaleiro apaixonado que se propõe despertá-la, com um fogoso beijo nos lábios. Mas, na verdade, quem estraga as histórias das princesas adormecidas não são nem os dragões nem as maçãs envenenadas. Nem o riso sarcástico das bruxas. Nem, muito menos, o lobo mau, o capitão Gancho ou a Maga Patalógica São mais os espelhos mágicos. E, pior, muitos pais enfeitiçam as crianças, tornando-as sapos, quando as transformam no seu precioso espelho mágico, ficando totós uns para os outros. E, mais beijo menos beijo, esquecem que, ao contrário das histórias, as pessoas só acordam sempre que despertam, umas para as outras, ao mesmo tempo."
Escrito por Eduardo Sá
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Terça-feira, 20.12.11

A nossa pátria são todas as crianças.

Por Eduardo Sá

 

Todas as crianças têm o direito a ser crianças. E têm o direito a crescer livres, mas com regras, num país amigo das crianças.

Todas as crianças têm o direito a um país cuja Lei do Trabalho preveja que as consultas de obstetrícia sejam, também, uma obrigação de todos os homens à espera dum bebé. Onde as crianças não tenham de sair cedo demais de casa. E onde os berçários e os jardins-de-infância sejam, tendencialmente, gratuitos e para todos, sendo reconhecidos como uma condição essencial para que a educação seja melhor, mais plural e mais bonita.

Todas as crianças têm direito a uma escola que as eduque, antes de instruir. Onde não passem tempo demais, todos os dias. Em que as aulas não sejam tão grandes como têm sido e se poupe nos trabalhos de casa. E em que os recreios sejam maiores em tempo e melhores nas condições de segurança e nos recursos que põem ao dispor de todas as crianças.

Todas as crianças têm, também, direito a livros escolares gratuitos, para todo o ensino obrigatório, que sejam, idealmente, propriedade de cada escola, sendo as crianças obrigadas a acarinhá-los, todos os dias, porque só quando o conhecimento passa de uns para outros, e se trata com cuidado, nos torna sábios.

Numa escola amiga das crianças os professores contam histórias e acarinham, quando ensinam. E haverá, por isso, um quadro de honra para todos os alunos faladores. Porque uma escola que não fala e não escuta vive assustada e fechada sobre si. E, se for assim, educa mal. E não é escola.

Numa escola amiga das crianças todas elas estão obrigadas a ser agressivas. Com maneiras. E a ser leais, umas com as outras. Numa escola amiga das crianças as que fazem queixinhas, a torto e a direito, os alunos exemplares, os alunos solitários e mal-educados, os alunos violentos, e aqueles que repetem mas não pensam são crianças cujos pais têm necessidades educativas especiais. Devem, portanto, ser ajudados. Mas se, teimosamente, não quiserem perceber os perigos com que magoam os filhos, talvez não merecem ser pais.

Num país amigo das crianças, todas elas têm direito a tempo livre. Sem a tutela permanente dos seus pais. E sem ateliês onde façam os trabalhos de casa, onde vejam televisão e onde tenham de estar quietas e caladas. Aliás, num país assim, todas as crianças terão direito a conversar. Porque só quando se pensa com os outros, conversando com os botões e em voz alta, ao mesmo tempo, se aprende a crescer.

Num país amigo delas, todas as crianças têm direito a brincar. Todos os dias, sem direito a férias, pontes ou feriados. E a brincar com um dos pais, 30 minutos, de segunda a domingo. Têm, também, o direito a ser filhas únicas dos seus pais, uma vez por semana, por um bocadinho. E a ter os pais, ao jantar e depois dele, sem telemóveis e sem televisão, só para a família.

Num país amigo das crianças, todos os pais que achem os filhos sobredotados, devem ficar, de vez em quando, de castigo. Porque (sem quererem, certamente) não percebem que todas as crianças (mas todas, mesmo) têm uma ou outra necessidade educativa especial. E que, pior que não a corrigir, é disfarçá-la com tudo aquilo que, supostamente, se faz bem. E não percebem, também, que as crianças que eles acham normais, só parecem mais adormecidas porque as pequenas maldades e os desamparos, a zanga sem fim e a tristeza dos pais, quase todos os dias, lhes traz (ao coração e à cabeça) um ruído de fundo que atrapalha o pensamento. Para além disso, todos os pais que - mesmo dizendo «posso estar enganado...» - acham que os seus filhos têm uma personalidade muito forte, devem ficar de castigo duas vezes, porque baralham a convicção, que vem de dentro, com a teimosia que faz «braços de ferro», por tudo e por nada com quem está fora. Mas, se por infelicidade, os pais insistirem em ser simplesmente, bonzinhos e prestadores de serviços (em vez de pais) estão poupados a todos os castigos, porque não há nada que doa mais que um principezinho que se transforma num pequeno ditador e, de imposição em imposição, chega à adolescência como grande tirano.

 

Num país com futuro, todas as crianças têm direito a uma família. E, por isso, não podem estar confiadas a centros de acolhimento tanto tempo como tantas estão. E têm o direito a uma Justiça amiga das crianças, que obrigue a segurança social a ser mais despachada e eficaz, sempre que se trate de as proteger. E se, porventura, houver quem queira transformar um Tribunal num tutor de pais zangados e desavindos, que nunca põe os interesses dos filhos em primeiro lugar, num país amigo das crianças eles serão advertidos e castigados, porque não merecem ser pais. Simplesmente, porque todas as crianças têm direito ao direito e ao afecto (que, de braço dado e como quem tagarela muitas vezes) tornam o mundo mais clarividente e mais sensato.

Todas as crianças merecem um país amigo das crianças. E, sobre tudo o resto, é-lhes devido o direito a ser crianças. Dos 0 aos 18, fazendo as contas pelos mínimos. E têm o direito a ter pais. Daqueles que, sempre que desligam o «piloto automático» com que educam e dão colo, ligam uma espécie de atrapalhador com que dizem (gritando, já se vê): «A partir de hoje!....» muitas vezes. E têm, ainda, o direito a pais de coração grande e de cabeça quente. Daqueles que fazem, pelo menos, uma asneira, todos os dias sem a qual ninguém se torna amigo das crianças. E, muito menos, mãe ou pai.

E merecem, ainda, o direito a admirar os pais e os avós. Porque só quem admira se torna humilde. E só quem conhece a sua história, e se orgulha dela, conquista o direito a ter futuro.

Todas as crianças têm, finalmente, o direito a ingonhar engonhar, a destrambulhar destrambelhar, a azucrinar e a chinfrinar. Têm direito a ter uma ou outra macacoa. E a ser, até, estrambólicas e escaganifobéticas. Que são formas complicadas de falar da salvaguarda do direito de quem se engasga e de quem se engana, de quem exagera e se atrapalha, e de quem erra. Que só é possível quando se tem pais e avós, e muitos tios ligados nelas. Que, todos juntos, façam com que, venha de onde vier, cada criança nunca se perca no caminho para casa.

Todas as crianças têm o direito a um país amigo das crianças. Onde todas as pessoas, nem que seja aos bocadinhos, sejam atentas, serenas e sábias, bondosas e firmes para com elas. Um país onde todas as crianças se sintam filhas dos pais e sobrinhas de todos. Um país que não as idolatre nem endeuse, mas que as ame, simplesmente (que é tudo aquilo que quem repete que «o melhor do mundo são as crianças», raramente, lhes dá). Porque, afinal, a nossa pátria são todas as crianças.

 

http://www.paisefilhos.pt/index.php/opiniao/eduardo-sa/4216-a-nossa-patria-sao-todas-as-criancas

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Terça-feira, 13.12.11

Eduardo Sá: “Estamos a espatifar a infância das crianças”

 

Disse um dia que as crianças estão em vias de extinção…

Estão. Não digo isso pelo facto de o Governo e a oposição as terem transformado numa espécie de conta poupança reforma. Acho até divertido que se fale de tudo e mais alguma coisa nas várias campanhas – presidenciais incluídas – e as questões das crianças e a política de fundo para a família nem sequer exista. Portanto, o que é que a mim me preocupa? Preocupa-me esta ideia complemente absurda de crescimento, que dá a entender que as crianças têm que ser jovens tecnocratas de fraldas antes dos seis, têm que ser jovens tecnocratas de mochila depois dos seis e têm que ser jovens tecnocratas de sucesso ao entrarem na universidade para que, finalmente – como se fosse uma linha de montagem –, saíssem todos mestres. Mestre é a designação mais vergonhosa que eu já vi para um título académico, porque é um título que reconhecemos aos sábios.

Andamos a enganar os jovens?

Isto é o cúmulo da publicidade enganosa. Explicar a miúdos com 22 e 23 anos que são mestres, de maneira a esperar que eles sejam, de preferência, ídolos antes dos 30… Anda toda a gente num registo eufórico e doente, que não percebe que as pessoas precisam de tempo para crescer. Acho engraçadíssimo quando dizem com orgulho que no jardim-de-infância há crianças que já sabem ler e escrever, mas não é isso que as torna mais sábias. Às vezes, as pessoas confundem macacos de imitação com crianças sábias. Acho engraçadíssimo quando as crianças não podem errar – eu julgava que errar era aprender. Mas não: as crianças têm que ter notas que são insufladas sabe Deus pelo quê. Vivem empanturradas em explicações. Se os pais puderem utilizar todo o tempo que a escola coloca ao serviço das famílias, elas podem passar 55 horas por semana na escola… Estamos a espatifar a infância das crianças, a espatifar a adolescência e, depois, com um olhar absolutamente cândido, dizemos que elas têm défi ces de atenção.

Existe a ideia que as pessoas mais escolarizadas são pessoas mais educadas?

Vive-se com essa a ideia. E peço desculpa, mas as pessoas, com toda a boa vontade do mundo, estão a tornar as crianças mais estúpidas. Se as crianças não aprendem a tolerar as frustrações, nunca hão de ser engenhosas e nunca hão de aprender com as dificuldades. A dor dói, magoa, mas é uma oportunidade de crescimento e não há dores que venham por bem. As dores são as grandes oportunidades para nos interpelarmos e para nos transformarmos. E nós não damos oportunidade às crianças para serem crianças. Queremo-las como fossem clones daquilo que nós sonhámos ser, mas que não fomos capazes. E, nestas circunstâncias, tem que haver alguém com algum bom senso que diga “tenham cuidado que estão a comprometer tudo”.

As crianças brincam pouco?

As crianças brincam de menos. Se houvesse em Portugal um Ministério da Educação digno desse nome, teria outro tipo de cuidado com os recreios das escolas. Os recreios das escolas públicas são uma vergonha. Não reúnem condições indispensáveis para brincar. As escolas deviam ter recreios cobertos, mas brincar é, para os governantes, uma atividade tipo primavera-verão: quando está frio e a chover, as crianças não podem ficar nas salas, não podem ficar nos espaços comuns, não podem andar na chuva… Brincam nos beirais, que é uma preparação para os desportos radicais. Mas, na falta de cuidados em relação às crianças, há um exemplo que é o mais delicioso do mundo: não compreendo porque é que as crianças têm uma disciplina de Educação para Saúde e depois, nomeadamente nas escolas públicas, as casas de banho dos alunos não cumprem as condições indispensáveis em termos de saúde pública. Para a ASAE, a segurança alimentar é importante, a contrafação é importante. As crianças, não.

O que lhe apraz dizer sobre toda esta polémica em torno dos contratos de associação?

Não me choca que o Estado, quando não consegue cumprir os seus compromissos, possa delegá-los noutros. E possa, na sequência disso, fazer os contratos de associação que acha que deve fazer. Até aqui, isto é pacífi co. Agora, há dois aspetos que me parecem incontornáveis: quando as pessoas querem negociar de forma séria e leal, negoceiam a tempo e horas e não me chocaria se hoje estivéssemos a negociar uma transformação para daqui a dois anos, de maneira a que se possam pensar alternativas. Não acho que o Governo tenha estado bem neste aspeto. Agora, choca-me que depois as crianças sejam instrumentalizadas de uma forma absolutamente indecorosa e sejam trazidas para discussões que não são bem razoáveis. Instrumentalizar campanhas presidenciais à esquerda e à direita com este tipo de questões, peço desculpa, é um bom serviço em favor do obscurantismo.

Cada vez mais se ouve falar de crianças maltratadas…

Felizmente.

Tal não significa que haja maior número de crianças nessa condição?

Por amor de Deus. Estas são as melhores famílias que a humanidade conheceu. As atuais. O que significa que os nossos filhos estão seguramente melhores.

O que leva um pai a maltratar um filho?

(suspira) Muito sofrimento acumulado. Pessoas doentes sempre existiram ao longo da história. O sistema judicial é que não. É uma conquista importante da humanidade e todos nós devemos exigir que um sistema judicial, dedicado às crianças, seja um bocadinho de sistema judicial e que tenha um componente significativo de saúde, nomeadamente de saúde mental. Que nós aceitemos que os pais maltratem, não podemos aceitar; que nós aceitemos que o Estado, como garante de princípios fundamentais, seja omisso na proteção das crianças, é que eu acho que seja inadmissível. Quando grande parte das comissões de proteção tem pessoas da maior generosidade que estão em part-time ou em voluntariado, isto diz bem o que é a proteção das crianças em Portugal. Quando nós admitimos que haja crianças que, no fundo, estão sinalizadas como estando em perigo, mas estão em perigo durante anos… É aqui que eu acho que temos que parar e perceber o que é que queremos da proteção das crianças. Porque o Estado não cumpre a lei. Em média, as crianças estão confiadas aos centros de acolhimento cinco anos. O Estado comete ilegalidades sobre ilegalidades a esse nível.

Mas porque é que se maltrata?

Repare: ainda hoje há pessoas que suspiram pela escola do antigo regime, que era uma escola exemplar, onde cada erro representava uma reguada. Muitos destes pais tiveram escolas e famílias muito autoritárias. É por isso que os pais hoje, quando se trata de dizer que “não” a um filho, confundem autoridade e autoritarismo. E passam a vida quase a pedir desculpa com a ideia de que o “não” traumatiza. A autoridade é um exercício de bondade; o autoritarismo é um exercício de prepotência. A prova de que nós fomos crescendo com estes equívocos é um bocadinho esta. Ainda há pais maltratantes.

De todos os estratos sociais, portanto…

De repente, até parece que os pais da classe média não maltratam. Há crianças que andam em colégios para meninos com “pedigree” e chegam lá todos os dias com marcas de serem batidas. E quando têm 80 por cento nos testes ficam em pânico, porque são aterrorizadas constantemente… Essas crianças estão em perigo. Porque é que as comissões nunca protegem esse tipo de crianças? Temos que proteger mais e proteger melhor. E os tribunais têm que ser mais duros em relação aos pais que maltratam e negligenciam porque, por mais doentes que eles estejam, não têm o direito de desbaratar todos os recursos saudáveis dos filhos.

É possível ensinar as pessoas a serem bons pais?

É. Os pais precisam de falar pelos filhos: eles sabem muito bem que quem nos ama diz-nos por atos (e por omissões) qualquer coisa como: “sente-me em ti, pensa por mim e fala por nós”. E, de facto, os pais às vezes sentem, pensam, mas não falam. Não falam nem por eles, nem pelos filhos. Ensinar pode fazer-se de maneira divertida, pode significar dizermos aos pais que estão obrigados a dar uma hora por dia aos filhos. Uma hora de mãe ou uma hora de pai, faz muito melhor do que o óleo de fígado de bacalhau para as crianças crescerem. E é necessário dizer aos pais que têm fazer, pelo menos, uma asneira de oito em oito horas. Os pais que não fazem asneiras não são bons pais.

Costuma dizer que as pessoas têm o coração apertado até ao último botão. É o que se passa com os pais?

Acho que somos todos mal-educados. Todos tivemos uma educação judaico-cristã, uma educação positivista que, em muitos aspetos foi importante, mas que criou um vício de forma muito cartesiano que nos leva a imaginar que, quanto mais racionais, melhores pessoas. Fomos todos mal-educados para as emoções. Ainda continuamos a achar que ter raiva é uma coisa feia, como se a raiva não fosse o melhor ansiolítico do mundo. Quem assume que tem ódio de vez em quando? E o ódio só acontece quando alguém que nos ama nos magoa muito. As emoções são um GPS fantástico que temos na nossa vida e nós somos educados para reprimir as emoções. Quando reprimimos as emoções, além dos efeitos neurológicos que isto provoca, vai introduzir uma coisa que é pior: à medida que não transformamos as emoções em palavras, passamos a ficar partidos ao meio. Sentimos tudo, somos tremendamente intuitivos, mas depois deixamos de aprender a falar. Quanto menos somos educados para as emoções, menos educados nos tornamos para as palavras e mais começamos a adoecer.

Somos, então, mal-educados para o amor?

Somos também mal-educados para o amor. Mas para que é que é preciso educação sexual nas escolas? Vai-me desculpar, a sexualidade faz muito bem à saúde. Mas muitas vezes esta “educação moral e religiosa parte II” está a partir do pressuposto de coisas erradas. Educar para o amor é uma coisa muito mais séria. É muito importante dizer o que é o aparelho reprodutor e falar de meios contracetivos… nada disso merece questão. Mas o que eu gostava é que também se explicasse o que é que são as relações amorosas. Devia ou não devia ser proibido casar com o primeiro namorado? Só devia. Quer dizer: passamos a vida a dizer que errar é aprender, mas nas relações amorosas temos que acertar à primeira. Onde é que isto já se viu? Isto é mentira. Se queremos educar para as relações amorosas, devíamos dizer que devia ser proibido casar para sempre.

Não devia ser para sempre?

São todas para sempre. Mas o que eu gostava que as pessoas percebessem é que quanto mais importante é uma relação mais frágil se torna. Porque exigimos às pessoas que amamos – e bem –aquilo que não exigimos a mais ninguém. E quanto mais importante for uma relação, mais preciosa ela é. Era muito bom que nós dissemos que todas as relações morrem, sobretudo as mais importantes e, sobretudo, se foram maltratadas. No fundo, educam-nos para nós abotoarmos o coração até o último botão. E, às vezes, as pessoas despem-se facilmente por fora e têm dificuldade em perceber que o grande desafio da vida é despirmo-nos por dentro. É darmo-nos a conhecer por dentro.

Teve uma infância feliz?

Gostava de ter brincado muito mais. Gostava de não ter passado por algumas situações difíceis que vivi. Poderia ser muito melhor, seguramente.

 

http://www.asbeiras.pt/2011/03/eduardo-sa-%E2%80%9Cestamos-a-espatifar-a-infancia-das-criancas%E2%80%9D/

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Terça-feira, 06.12.11

Algumas Citações de Eduardo Sá

Algumas Citações de Eduardo Sá

É psicólogo clínico, psicanalista e professor de psicologia clínica na Universidade de Coimbra e no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. Tem uma longa experiência de acompanhamento de fetos e de bebés, de crianças, de adolescentes e das suas famílias. Director da Clínica Bebés & Crescidos

 

As emoções tornam tão irrepetível tudo o que vivemos que, depois de vividos, todos os acontecimentos... «já eram». Isto é, por mais que os tentemos descrever, deixam de ser, exactamente, como os vivemos e, por isso, tornam-se... mentira

 

O silêncio só é silêncio quando não somos capazes de escutar com o coração

 

A melhor forma de não perder nada não é guardar: mas compartilhar

 

As pessoas morrem quando nos decepcionam e, para nossa perplexidade, com elas morre sempre um bocadinho, mais ou menos indecifrável, dentro de nós

 

Os mais velhos só aprendem quando aceitam que, para educar os outros, é necessário, em primeiro lugar, querer aprender com eles. E isso só é possível quando, nas intenções da educação, a aquisição de conhecimentos for substituída pelo carinho à sabedoria.

 

Amar é conhecer mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece mais de nós do que nós mesmos.

 

Crescemos imaginando que é possível aprender sem errar. No amor, por maioria de exigência. O que transforma, muitas vezes, o coração numa folha de cálculo. Ora, do mesmo modo que dar à luz não é tirar todas as dúvidas (mas pôr problemas), errar é aprender. E descobrir que, olhando por quem se olha, o importante nunca é saber como se faz, mas com quem se conta para chegar ao que se quer.

 

É certo que quase nada vale por aquilo que parece. E, no entanto, talvez o que pareça valha sobre o quase-nada que lhe falta para ser tudo aquilo que não é.

 

Transformar em qualquer coisa de sobrenatural tudo o que sentimos, só porque a racionalidade assim obriga, faz do silêncio uma enorme enciclopédia de todas as verdades por dizer.

 

Há muita diferença grande entre temer a morte e amar a vida. Temer a morte deixa-nos em dívida com a vida. Torna-nos minúsculos. Compenenetrados dos nossos papéis. Falsos e complicados. (...) Temer a morte deixa-nos levar pelas marés de todos os dias. Amar a vida desafia para as aproveitarmos nas rotas onde nos queremos ao leme

 

Às vezes, os políticos parecem repartir-se entre os que nunca se enganam e os que só reconhecem os erros dos outros. Os que se salvam imaginam a coerência como um lugar sem contradições. Ora, passamos bem sem os que nos indicam, uma a uma, as faltas dos outros. Perdoamos os erros, porque todos sabemos que são eles que nos ajudam a crescer.

 

Estranhos não são as pessoas que não se conhecem: estranhos são aqueles que, estando ao pé de nós, parecem nunca perceber o que se passa connosco.

http://ashera.multiply.com/journal/item/292

 

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Terça-feira, 19.07.11

Modelo Montessori - Individualidade e liberdade



Palmira Simões

Mais do que uma pedagogia é uma filosofia de vida: consiste em dar à criança liberdade para se desenvolver naturalmente.

A partir do momento em que a criança desenvolve a sua capacidade de aprendizagem, “absorvendo” tudo o que a rodeia até por volta dos sete anos, está apta a enfrentar todos os desafios que vai encontrando ao longo da vida. Esta é uma das premissas deste método que não se esgota na Educação da Infância, pois como filosofia de vida que é, pode ser aplicado muito para além disso. Em Portugal há poucas escolas que o adoptam mas “Coisas de Criança” foi descobrir uma vivenda amarela numa rua de São Pedro de Estoril, onde 28 crianças entre os dois anos e meio e o os cinco, de várias nacionalidades, incluindo a portuguesa, se dividem por duas salas, falam apenas inglês e aprendem e brincam de pantufas calçadas e ao som de música ambiente. A atmosfera não podia ser mais acolhedora, familiar e multicultural. Um ambiente que, para além de ser agradável e bonito, está rodeado de materiais que as ajudam a desenvolver os sentidos, a leitura, a matemática, as ciências… preparando-as a vários níveis, do intelectual à vida prática do quotidiano. Sob a supervisão - e sobretudo orientação - das educadoras. “No fundo, a educadora está lá apenas para guiá-las, porque o que é preciso é olhar para cada criança individualmente, ver o que ela necessita e facultar-lhe isso mesmo, sem forçar nada”, explica Adélia Lopes, directora e fundadora da Boa Ventura Montessori Nursery School, que amavelmente nos abriu as portas e nos mostrou como tudo funciona.

A origem do método
Deve-se à investigação e entusiasmo de Maria Montessori (1870-1952), a primeira mulher a formar-se em Medicina em Itália, mas que acabou por se dedicar também à Educação, nomeadamente de crianças com deficiência, implantando um método muito inovador na forma de abordar os mais pequenos. Nascia o século XX quando criou a sua primeira escola em Roma, e o sucesso foi tal que alargou os seus ensinamentos primeiro a toda a Itália e depois a outras partes do Mundo, da Índia ao Quénia, da Austrália à Holanda, local onde acabou por morrer e onde hoje se encontra a sede. Os seus livros estão traduzidos nas mais diversas línguas, incluindo o Chinês e o Árabe.
O método Montessoriano tem por objectivo a educação da vontade e da atenção/concentração, com o qual a criança tem liberdade de escolher o material a ser utilizado, além de proporcionar a cooperação, estando os seus princípios fundamentais baseados no trabalho, na individualidade e na liberdade. A curiosidade natural e a sede de conhecimento da criança fazem o resto.

Os materiais didácticos
Foram estudados para desenvolverem uma série de aptidões, podem ser manuseados quer em cima de mesas ou no chão e dividem-se em três grandes grupos: exercícios para a Vida Prática (as primeiras actividades logo a partir dos dois anos e meio a três, para, e segundo palavras da própria Maria Montessori, “…ajudar a criança a tornar-se o adulto que vai ser”); materiais Sensoriais transversais a todas as idades; e os materiais Académicos que motivam nos mais velhinhos o interesse pela Leitura, pela Matemática e pela Geografia. À excepção dos materiais da Vida Prática (que usam coisas do dia-a-dia), os restantes são na sua generalidade constituídos por peças sólidas (a maioria de madeira natural) de diversos tamanhos e formas: caixas para abrir, fechar e encaixar; colecções de cores com vários gradientes; caixinhas de sons; cilindros com diferentes profundidades para encaixar; torres com blocos de múltiplos tamanhos para erguer do maior para o mais pequeno; barras ou ripas com vários comprimentos para pôr por ordem, da mais grossa à mais fina, da mais curta à mais comprida; outros permitem brincar com as temperaturas, os pesos, as texturas, os cheiros, as formas geométricas, os números e as letras… sem esquecer as mais diversas actividades de grupo, entre elas o jogo do Silêncio, que ajuda a desenvolver o autocontrolo.

Para saber mais sobre o método Montessori…
…baseia-se em anos de observação da natureza da criança e na sua necessidade vital que é a de aprender, fazendo. Em cada etapa do seu crescimento mental são proporcionadas actividades através das quais desenvolve as suas faculdades. Por outro lado tem um grande respeito pela personalidade da criança, concedendo-lhe espaço para crescer em liberdade;
…permite ao professor tratar cada criança individualmente em cada matéria e segundo as suas necessidades e ritmo;
…propõe-se desenvolver a totalidade da personalidade da criança e não somente as suas competências intelectuais. Preocupa-se também com as capacidades de iniciativa própria, de decisão e de escolha e com a componente emocional;
…não desenvolve o espírito de competitividade e a cada momento procura oferecer às crianças muitas oportunidades de interajuda;
…demonstrou ter uma aplicabilidade universal.

http://www.coisasdecrianca.com/artigos/detalhe.php?idArtigo=185

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Terça-feira, 12.07.11

Terapias expressivas

 


Por Dina Afonso Florêncio, Educadora de Infância, Formadora e Professora Universitária

A criatividade e a expressão artística são um benefício com o qual todos nascemos e que deve ser explorado

Desde tempos imemoráveis que o ser humano utiliza a arte como uma forma de expressão de conteúdos emocionais. Por vezes é muito mais fácil demonstrar os nossos sentimentos através de um desenho ou de uma dança do que falando e expondo-nos aos outros. Com as crianças tudo se passa da mesma forma, quando questionamos as crianças acerca deste ou daquele assunto, nem sempre elas têm vontade de partilhar connosco o que lhes vai na alma, mas no momento a seguir numa brincadeira na casinha ou no adereço escolhido no cantinho das trapalhadas, conseguimos de uma forma natural perceber tudo o que as preocupa, angustia ou até mesmo lhes dá prazer.
Não devemos “cortar” a criatividade de uma criança e quando ela brinca ao faz de conta, não deve nunca ser repreendida (porque não é assim que se faz), pois muitas vezes é no faz de conta que as crianças são elas próprias sem medos, sem receios de errar e sem que se criem expectativas à sua volta, por vezes tão difíceis de atingir.
Embora já há muito tempo haja um interesse crescente pela relação terapia e arte, foi somente a partir da década de 1930 que psiquiatras e outros terapeutas começaram a desenvolver importantes trabalhos com alguns pacientes (em especial pacientes com esquizofrenia) colocando a arte como uma forma criativa de auxiliar questões emocionais, resolução de conflitos, melhoria de auto-imagem, reestruturação emocional, minimização de traumas, superação de obstáculos, desenvolvimento de competências pessoais, treino de habilidades sociais, entre outras.
Com as crianças todos estes itens podem ser trabalhados, criando ambientes de liberdade expressiva com a ajuda de diversas técnicas artísticas, tais como dança, teatro, música, literatura, canto, artes plásticas e outras infinitas possibilidades criativas. No mundo das terapias expressivas não é a perfeição ou a obra artística que interessa, mas sim a actividade criadora, a imaginação, a criatividade e principalmente a emoção que se coloca nas diversas experiências.
Quando se trabalha com a dança, não se fazem coreografias, nem se preparam apresentações, dá-se sim a possibilidade à criança de dançar ao som de diversos estilos musicais que lhe proporcionem diversos sentimentos e ao mesmo tempo as façam libertar de todas as frustrações.
Todos nós fazemos a nossa própria terapia, mesmo que inconscientes; quando chegamos a casa cansados de uma semana agitada, quantas vezes colocamos uma música calma e nos deitamos no sofá a relaxar? E quantas outras vezes, igualmente cansados, colocamos uma música agitada e vamos para o meio da sala dançar? Tudo depende do nosso estado de espírito, das nossas emoções e principalmente de nós próprios e dos que nos rodeiam.
Através das terapias expressivas, podemos mostrar um lado de nós que nem nós próprios conhecemos, podemos libertar-nos e ser nós próprios, podemos contactar com o mundo do inconsciente e podemos essencialmente fazer com que as crianças com quem trabalhamos consigam sempre “pôr cá para fora” as tensões acumuladas e recalcadas.
Tão importante como aprender a ler ou a escrever é aprender a criar e a expressar as nossas emoções e sentimentos. Seja qual for a técnica utilizada, dançoterapia, psicodrama, arte terapia, ludoterapia ou musicoterapia, a expressão não é um espectáculo, mas apenas uma forma de contacto com o nosso inconsciente e com o que de mais profundo temos em nós. A verdade é que trabalhar com crianças é muito mais que transmitir-lhes saberes, pois é importante que saibamos matérias e conteúdos, mas mais importante ainda é que saibamos ser nós próprios, não temendo as falhas e sabendo lidar com as frustrações.
Mesmo no trabalho com crianças com necessidades educativas especiais é fundamental fazê-las sentirem-se capazes, pois a arte contribui muitas vezes para um aumento do desenvolvimento mental em pontos como: atenção, memória, raciocínio, curiosidade, observação, criatividade, entre outros.
Através de expressões artísticas podemos transmitir conteúdos como estes e outros mas de uma forma prazenteira, divertida e principalmente criativa e este processo não deve ser feito apenas com as crianças mas sim com as suas famílias, uma vez que as terapias expressivas em Educação de Infância devem sempre ser planeadas com uma intervenção contínua dos pais.
Assim sendo, e por exemplo se verificarmos que uma criança tem dificuldades de memória visual ou de temporalidade ou ainda de equilíbrio, recorrendo à dança tão apreciada no meio infantil como forma terapêutica podemos organizar uma sessão de dança educativa com danças de memória, de equilíbrio e ainda danças com marcação de ritmos diferenciados que a vão ajudar a superar estas dificuldades, mas de uma forma lúdica e ao mesmo tempo extremamente eficaz.
As propostas devem ser organizadas para que pais e filhos partilhem entre si momentos, momentos de prazer, de dor, de satisfação, de frustração, entre outros, mas sempre partilhados pelos que amamos e que nos amam. Num contexto real de trabalho, podemos planear sessões expressivas só com as crianças, só com os pais e sessões conjuntas entre pais e filhos onde juntos possam caminhar para um equilíbrio pessoal e familiar, ajudando-os a ultrapassar possíveis dificuldades.

Os benefícios das terapias expressivas na educação de infância são muitos, dos quais podemos destacar:
– Melhora a comunicação da criança consigo mesma e com o outro.
– Favorece a procura da autonomia e do equilíbrio de vida.
– Aumenta a espontaneidade e a criatividade da criança positivamente orientadas.
– Descarrega emoções recalcadas.
– Facilita a integração de crianças passivas e introvertidas.

Experimentar os benefícios das terapias expressivas, não é apenas criar uma obra de arte, tocar um instrumento ou movimentar o corpo, mas sim VIVENCIAR, em educação, o potencial e a força criativa que leva as crianças e os adultos ao auto-conhecimento, ao encontro do equilíbrio e à superação das suas dificuldades emocionais.

Saber mais em: www.vivenciarte.com

http://www.coisasdecrianca.com/artigos/detalhe.php?idArtigo=137

publicado por salinhadossonhos às 01:51 link do post | comentar | favorito

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